Autoconhecimento

Um escrito simples e uma carta ao sentimento

06/05/2020

O ano começou para alguns com uma lista de metas, viagens, trabalho, vida fitnes, faculdade, eram muitos planos e desejos, porém, de repente fomos surpreendidos por um vírus com um aviso: vai com calma! Deixa teus planos no papel pelo menos por enquanto que cheguei sem muita pressa, e pretendo deixar algumas lições e ensinar umas tantas outras. O mundo precisou dar uma pausa, e o vírus continuou dando sinais: minha permanência depende de obediência, inteligência e uma dose generosa de sensibilidade, vou quando perceberem que minha permanência tem uma razão.

No caos instalado, estava alguém que também tinha sonhos, planos e uma vida para organizar, e assim que percebeu sua insignificância diante dele começou a escrever, colocar no papel os seus sentimentos.

Se resolve? Tem funcionado bem, primeiro,  o desejo de entender tudo de uma vez, compreender as notícias, o tanto de informação e diante dos  questionamentos e da confusão instalada um outro alerta, o vírus quer pausa e não excesso. A partir daí, comecei a filtrar informação, apertei a tecla delete algumas vezes, desinstalei aplicativos e formatei tudo, computador, celular, sentimentos e, redirecionando a vida aos poucos, entendi a necessidade exigida pela pandemia de repensar muita coisa e as tantas outras que esse momento tem revelado.

Estamos aqui tentando entender e sobreviver a isso tudo, e nessa incerteza diária, acompanhamos a dor da perda… a fome que andava escondida foi, agora, revelada; o desespero instalado, a insensibilidade escancarada. Mas, mesmo diante de tanto caos e tristeza, surge um sinal de esperança no gesto de milhões que se mobilizam para que outros não morram, os muitos que dão a vida para que outras vidas permaneçam, a chama de uma solidariedade que cresce diante de tamanha incerteza, o apelo daqueles que não conseguem ajudar, mas se responsabilizam em permanecerem confinados para não colocarem outras vidas em risco, a dor da perda transformada em combustível para os que não podem parar.

O caos continua, mas aos que administram o confinamento e conseguem enxergar o sinal da esperança despertam dos seus corações um novo ser, se apresentando ao mundo um artista escondido, a curiosidade de aprender algo novo… o caos revelou artistas, cantores, comediantes, curiosos e pessoas sonhadoras veio à tona.

O mundo estava mesmo precisando parar, para que todos valorizassem o que há de mais simples e belo escondido nelas mesmas…  ainda no meio desse caos, tinha alguém aqui que só escrevia sobre a vida, a minha e a dos outros, alguém que escrevia percepções da sociedade, escrevia sobre sonhos e sentimentos, e que, agora, escolheu relatar o caos que também a acometeu, sem pretensão de expor, sem medo dos julgamentos, sem correção ortográfica, alguém que tem o desejo de apenas combinar palavras e alcançar pessoas através delas, escolhi caneta e papel para expressar o que talvez não consiga de outra forma… se perguntarem quem sou, respondo: aprendiz de escritora .

Para cada dia do isolamento, uma frase, um pensamento, uma palavra e alguns sentimentos, assim nasceu esse texto.

Para quem deseja experimentar esse exercício e deseja entender e passar esse período menos confusa e mais conectada com seu “eu”, comece escrevendo, jogue tudo no papel sem filtro, derrame seus sentimentos, seus medos e incertezas, dê nome a eles, questione sem medo, converse com eles… venho combinando palavras e tem dado certo, escreva sem medo do que vão pensar, apenas escreva o que tem brotado do teu coração, o que demais latente cresce em você. E se for raiva? Escreva! Medo! Escreva, seja lá o que for, só escreva.

Um desses dias também sentir raiva, o que fiz? Escrevi uma carta à  raiva que naquele dia me visitou. Segue carta:

Raiva                                                        xx.xx.2020

Olha raiva não sei ao certo o que veio fazer, nem sei o motivo que fiz te acessar, mas primeiro queria te dizer que tudo bem você ter vindo, afinal costumo deixar a porta dos sentimentos aberta, então, é possível entrar sem bater. Segundo: preciso te avisar que tem tempo marcado para partir, não costumo permitir estadia para quem deseja me tirar do controle, e se por algum motivo se sentiu convidada,preciso que saiba que não era minha real vontade. Devo confessar, se conseguiu me acessar,  é por que alguma coisa necessitava de ajuste, pode ter chegado para sinalizar algo e tá tudo certo, te acolho, só não faz morada. Prefiro que chegue apenas como aviso, peço-te, de todo meu coração, caso encontre a porta fechada da próxima vez, não é egoísmo, é apenas meu domínio me mostrando que consigo seguir sem você.

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Pode parecer loucura conversar e escrever com seus sentimentos, só não permita que eles te travem, pois eles, assim como você, são livres, eles fazem morada onde é permitido, onde se tem acesso. Essa foi a forma mais honesta que encontrei para administra-los. O carteiro tem passado muito por aqui, somos amigos e deixa eu te contar uma coisa: não se paga nada, nem selo, nem frete e pode ser enviado nos domingos, feriados, nas madrugadas a qualquer hora e onde teu coração permitir. Desejo que a caixa de correio do teu coração esteja cheia e que teus cadernos estejam marcados com os mais variados endereços. Enquanto tudo isso acontece, escrevo, se isso tudo te conecta e faz sentido, conta comigo, vamos escrever juntos e fazer desse correio um ponto de encontro.

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Texto de autoria da assistente social, Naty Cerqueira

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